Publicado em 26 de setembro de 2017 por Paço da Imagem

Na categoria: Artigos

Fotojornalismo – por Alcyr Cavalcanti

Para mim o aparelho fotográfico é um caderno de notas, um instrumento de intuição espontaneidade, senhor do instante que em termos visuais pergunta e responde a um só tempo. Para expressarmos o mundo temos que nos sentir envolvidos com aquilo que descobrirmos no visor. Esta atitude exige concentração, disciplina mental, sensibilidade e senso de equilíbrio geométrico. É pela grande economia de meios que se chega à simplicidade de expressão.

Henri Cartier-Bresson

 

 

O Fotojornalismo é um segmento da fotografia inserido no campo do jornalismo, que está inserido no campo da produção cultural. A noção de campo  para Pierre Bourdieu é o espaço de relações entre grupos com distintos posicionamentos sociais, sendo um espaço de disputas e jogo de poder. O campo jornalístico está inserido no campo da produção cultural e como qualquer espaço de atuação social funciona a partir de uma dinâmica própria, com certa autonomia. É um dos vários subcampos que constituem o campo maior, o da cultura.

No Fotojornalismo o que está em evidencia é o fato, a noticia, e o que importa é transmitir com clareza e eficiência uma determinada informação. “Deste modo foto boa é a foto eficiente” (Milton Guran). Mais do que qualquer outro segmento a fotografia jornalística trabalha principalmente com o momento único, o instante definitivo que não se repetirá. A fotografia como qualquer outra atividade humana deve responder a duas questões básicas: o que fazer, e como fazer. No caso do Fotojornalismo o fio condutor de nossa reflexão é o fato jornalístico, ou seja, a notícia. Devemos sempre buscar a maior eficiência para transmitirmos a informação, ficando em plano secundário os critérios estéticos ou pseudo estéticos, que só serão efetuados se houver condições suficientes. Devemos lembrar que a informação em nosso caso só é boa e eficiente quando transmitida com clareza. A linguagem fotográfica é eminentemente sensorial, impressionando de modo direto o sentido da visão. A fotografia, mais que o texto escrito induz a uma atenção visual e apreensão imediata da informação apresentada. Para Marilena Chauí “a vista é de todos os nossos sentidos aquele que nos faz adquirir mais conhecimentos e descobrir mais diferenças”.

 

 

Das Placas de Vidro à Tecnologia Digital

Nos primórdios fotografar não era uma tarefa fácil. O objeto tinha de ficar imóvel e o próprio fotógrafo tinha de trabalhar com vários ajudantes para carregar os quilos de equipamento. Posteriormente a iluminação era feita com lâmpadas de magnésio, que poderiam causar queimaduras, além de produzir um clarão muito intenso. Era quase impossível obter um flagrante, a essência da fotografia jornalística. Placas de vidro, frascos e drogas eram amarradas nas caixas nos lombos das mulas. O fotografo francês Victor Frond foi um dos pioneiros no Brasil, trabalhou no Estado do Rio entre 1857 a 1859 e utilizou jovens ajudantes locais, e alguns deles vieram a se tornar fotógrafos. A antropóloga Lygia Segala fez tese de mestrado sobre seu trabalho.

Com o tempo as câmeras fotográficas foram diminuindo de tamanho até chegarmos às de 35mm, cujo modelo ideal era a Leica fabricada na Alemanha, com objetivas de alta qualidade e filme com 36 poses. Hoje com a tecnologia digital além de pequenas objetivas junto aos telefones celulares, passa a haver uma massificação da fotografia. No Fotojornalismo, em todo o planeta as câmeras fotográficas reflex de uma objetiva  são as mais usadas, principalmente as marcas Nikon e Canon, ambas japonesas. As câmeras reflex de visor direto de uma objetiva têm o visor ao nível do olho como extensão direta da visão em relação à cena que está sendo registrada. As regras clássicas oriundas da pintura devem também ser usadas, embora tenham sido frequentemente desrespeitadas em nome de uma pretensa pós-modernidade. O bom enquadramento é um recorte da realidade, uma parte do real sempre em movimento, sendo a solução final conforme o ponto de vista do autor (o fotógrafo), sendo um ato de escolha de um momento único  que não se repetirá, que poderá ser imitado mas não igualado, que se estenderá ao direito de autor, sendo o autor o único que poderá decidir sobre o corte quando de sua publicação. Como em toda regra sempre existe uma exceção, no Fotojornalismo às vezes somos obrigados a fazer corte na imagem, pois as fotos podem ter sido feitas em condições desfavoráveis, aparecendo pessoas ou objetos indesejáveis servindo para poluir o quadro, devendo ser eliminados. Devemos lembrar que no Fotojornalismo a fotografia difere do texto escrito, não podendo ser feita novamente. Perdeu o momento perdeu a foto. A escolha do momento é o ponto de maior relevância sendo também aquele que demonstra que a fotografia tem por trás da câmera um autor, que decide o momento, o clique exato. O mundo principalmente nas grandes cidades está em processo de continua mutação, o que irá obrigar o repórter fotográfico a registrar varias cenas em sua câmera, mormente agora com as novas tecnologias e cartões de memória que permitem centenas de imagens. Ele deverá fazer uma seleção, uma edição final eliminando o que não for interessante. É como um rascunho para um texto final. Neste ponto, para publicação em qualquer mídia o resultado final é o que interessa.

A posição do fotógrafo diante da cena é fator de suma importância. Para Robert Capa um dos fundadores da mítica Agencia Magnum “A foto só é boa quando o fotógrafo chegou suficientemente perto”, nesse caso o enquadramento eliminará o que não for interessante, dando destaque ao que for relevante. É o recorte exato da realidade. O enquadramento ideal feito através do visor da câmera é fruto da capacidade do autor em perceber geometricamente as formas que compõem os objetos, usando as linhas, superfícies, luzes e sombras em frações de segundo, no caso de se procurar registrar o instante decisivo. Existem algumas regras básicas como não cortar a cabeça, ou os pés, no caso de se enquadrar o corpo inteiro.  No caso de corte usa-se o que no cinema chamamos “plano americano”, ou seja, um corte pouco acima dos joelhos. Deve-se deixar um pequeno espaço entre o objeto focado e a área útil do quadro possibilitando a ampliação dentro das proporções. As regras do enquadramento seguem as regras das proporções (da pintura) baseadas nos pontos áureos do retângulo, pontos de harmonia, centros visuais deste espaço.

 

 

A Fotografia Jornalística como Documento Histórico

Imagens importantes ficam para sempre, como um retrato dos costumes de uma época. Se examinarmos fotografias de banhistas nas praias cariocas no início do século XX vai chamar nossa atenção diferenças nos costumes, principalmente as mudanças na arquitetura e as transformações nas grandes cidades. Casarios antigos, estilo belle époque deram lugar a imponentes edifícios pós-modernos, onde muitas vezes o vidro é uma constante. Copacabana vista de cima é uma imensa selva de pedra, mais de mil favelas também fazem parte de nossa cidade. A poluição na Baia da Guanabara se assemelha a uma “boca banguela” conforme notou Levy Strauss e desafia os discursos enganosos dos governantes.  Protestos feitos durante o impeachment vão ficar para sempre. Mais do que nunca o Fotojornalismo mostra sua importância, embora alguns jornais tenham se transformado em verdadeiras “fábricas de notícias” onde seus donos e prepostos só visem o lucro, em detrimento da informação, um dos princípios basilares da democracia.

 

Alcyr Cavalcanti – Fotojornalista e Antropólogo

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